terça-feira, 13 de julho de 2021

Drive - Tensão Máxima (1997)

 Nesta sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012, finalmente chega aos cinemas brasileiros o filme "Drive", de Nicolas Winding Refn, grande campeão de puxa-saquismo do ano passado, idolatrado por cinéfilos do mundo inteiro como se fosse um novo "Cidadão Kane". Portanto, não fique espantado se todos os sites e blogs brasileiros estiverem falando desse negócio hoje e pelos dias vindouros.


Mas não o FILMES PARA DOIDOS, porque eu devo ser a última pessoa sobre a Terra que ainda não viu o filme - gosto de conferir essas produções mais badaladas somente depois que saem da ordem do dia. E enquanto todos os meus colegas de internet escreverão maravilhas sobre Nicolas Winding Refn, Ryan Gosling e cia., prefiro aproveitar esse humilde espaço para falar sobre um outro DRIVE...


Pois eis que, em 1997, o chinês naturalizado norte-americano Steve Wang dirigiu um filmaço que tem justamente este nome, DRIVE. No Brasil, na época do vídeo, a obra recebeu o dispensável subtítulo "Tensão Máxima". Porque, naqueles tempos, tudo era "máximo" nos cartazes nacionais de filmes de ação: "Velocidade Máxima", "Risco Máximo", "Rotação Máxima", "Fervura Máxima", "Adrenalina Máxima", e por aí vai.

Infelizmente, o DRIVE do Steve Wang nunca alcançou a mesma projeção, repercussão ou nível de rasgação de seda deste "Drive" novo do Nicolas Winding Refn - e, é bom esclarecer, os dois filmes não têm absolutamente nada em comum além do título.

Se uso a expressão "infelizmente", é porque esse fantástico trabalho de Wang pode tranquilamente ser incluído em qualquer lista dos melhores filmes de ação da década de 90.


Mas você pode viver sua vida toda e nunca dar bola para ele, já que o filme se confunde com centenas de outras tralhas feitas direto para DVD, e nem a capa, nem o resumo empolgam de primeira. O que é uma pena, porque em tempos de Zack Snyder e Paul W.S. Anderson, DRIVE é uma verdadeira obra-prima.

Só fazendo uma rápida contextualização: na segunda metade dos anos 90, o cinema de pancadaria produzido nos Estados Unidos estava meio moribundo. Se antes todo mundo engolia ocidentais como Jean-Claude Van Damme, Chuck Norris e o "ninja falso" Michael Dudikoff mostrando suas habilidades em artes marciais, a onda a partir de então era importar diretores (John Woo, Ringo Lam, Tsui Hark), astros (Chow Yun-Fat, Jet Li, Michelle Yeoh) e coreógrafos do cinema oriental (Yuen Woo Ping, Corey Yuen) para fazer filmes hollywoodianos com cara de filmes de Hong-Kong.


O problema é que estas produções metade Ocidente, metade Oriente nunca conseguiam dosar as duas culturas a contento: ou elas soavam extremamente falsas e exageradas ao colocar, por exemplo, Tom Cruise como super-karateka (em "Missão Impossível 2", de John Woo), ou desperdiçavam o potencial de astros do lado de lá, como Jet Li, eternamente perdido e sub-aproveitado em aventuras bundonas e aquém do seu talento como lutador, repletas de efeitos digitais, dublês e cenas com cabos.

E então apareceu Steve Wang como saudável exceção à regra. Curto e grosso: DRIVE é o mais perto que o cinema de ação ocidental conseguiu chegar do nível dos filmes de ação orientais, sem afetação demais nem lutas de menos.


O roteiro de Scott Phillips é redondinho e bastante eficiente. Num futuro próximo, Mark Dacascos interpreta Toby Wong, um chinês especialista em artes marciais que teve um dispositivo bio-mecânico implantado no coração, para aumentar sua força, reflexos e velocidade. Graças ao dispositivo, pode trabalhar como super-assassino para seus empregadores, os executivos da maléfica Leung Corporation.

Só que Toby cansou de ser um super-capanga da bandidagem. Ele prefere fugir para os Estados Unidos e encontrar-se com os representantes de uma outra companhia, que não só tirarão o negócio do seu peito, como ainda pagarão alguns milhões de dólares pela traquitana.


Óbvio que não será uma tarefa fácil: o chefão da Leung Corporation (James Shigeta) contratou um exército de mercenários para caçar nosso herói e levá-lo de volta para casa com o dispositivo intacto. Caçado pelos bandidos e pela polícia, Toby precisa unir-se à força com um fracassado compositor de jingles, Malik Brody (Kadeem Hardison), para chegar a Los Angeles, onde a outra organização irá livrá-lo do incômodo probleminha em seu peito.

(O título do filme vem de uma frase que o herói diz ao entrar no carro do novo parceiro: "Just relax and drive!")

Para a sorte da dupla, a super-agilidade proporcionada pelo mecanismo transformou Toby num adversário praticamente invencível, que abrirá caminho na base da porrada, enfrentando grupos cada vez mais numerosos de inimigos.


À primeira vista, DRIVE não escapa de um milhão de clichês dos filmes de ação, incluindo a dupla sem nada em comum que é forçada a unir forças para sobreviver, e que, como manda a cartilha do cinema moderno, é formada por um branco e por um negro - à la "Máquina Mortífera" e tudo o que foi feito desde então.

A diferença é que tudo no trabalho de Wang funciona como um relógio: das cenas de ação pontuais e cada vez mais impressionantes à química entre a dupla de heróis, até os bem-sacados vilões que têm personalidade própria.


Me refiro aos líderes dos mercenários, que são o fanfarrão Vic Madison (John Pyper-Ferguson) e seu parceiro Hedgehog (Tracey Walter, o capanga do Coringa no "Batman" do Tim Burton). O primeiro passa do cômico ao ameaçador em questão de minutos - e tem colhões para usar um chicote contra um negro, algo muito corajoso nesses tempos politicamente corretos!

DRIVE não é somente um eficiente filme de pancadaria, mas também uma aventura bastante divertida, repleta de citações cinéfilas e de cenas engraçadas sem apelar para a caricatura ou gritaria. Malik refere-se a Toby como "os cinco dedos da morte", lembrando o título de um clássico das artes marciais, e reclama que o parceiro improvisado não é "Miss Daisy" para ser conduzido por ele em seu carro. O herói também identifica-se como "Sammo Hung" (!!!) em determinado momento do filme.


O próprio nome Toby Wong vem de "Cães de Aluguel", do Tarantino. Lembra da cena em que Joe, o chefão dos bandidos, examina uma velha agenda e fica repetindo para si mesmo: "Como era o nome daquela garota chinesa? Toby Chew? Toby Wong?".

Lá pelas tantas, Toby e Malik chegam a um hotel de beira de estrada dirigido por uma jovem maluquinha e ninfomaníaca. Para surpresa geral da nação, a moça é interpretada por uma ainda desconhecida Brittany Murphy, dois anos depois da comédia "As Patricinhas de Beverly Hills". Brittany, que morreu em 2009, viraria estrela hollywoodiana lá por 2001, e aqui tem participação bem curiosa - não, ela não é interesse romântico de nenhum dos personagens e logo some da narrativa.


Porque não há espaço para beijinhos e romance em DRIVE, e é na hora da pancadaria que o bicho pega e o filme mostra a que veio. As cenas de ação, coreografadas por Koichi Sakamoto, mesclam diferentes tipos de luta (até capoeira, que Dacascos já havia demonstrado em "Esporte Sangrento", de 1993).

As lutas também dão oportunidades para que o herói use todos os objetos à sua disposição contra os bandidos, de cadeiras a colchões, como Jackie Chan fazia nos bons tempos.


Ao lutar num apertado quarto de hotel, Toby pula contra as paredes para tomar impulso e literalmente voar contra os inimigos; ao lutar no interior de um bar, ele se pendura de ponta-cabeça num ventilador de teto para, girando, conseguir atirar em todos os bandidos ao seu redor (!!!); não falta nem a clássica cena em que os dois parceiros estão algemados e o herói é forçado a lutar usando o próprio corpo e o do seu parceiro como "armas".

E o melhor de tudo: na maior parte do tempo, a pancadaria é fruto de muito treino dos atores e dublês, e não de efeitos de computador ou do uso de cabos para suspender os lutadores. Dacascos realmente luta pra caramba, e tem a oportunidade de demonstrar isso sem maquiagem digital. Prepare-se para um montão daquelas cenas que você assiste meio emocionado e meio apavorado, pois fica evidente que os dublês se machucam ao serem atirados contra móveis e outros obstáculos.


Também fica evidente que tudo teve que ser exaustivamente treinado nos mínimos detalhes para que os atores soubessem onde encaixar os golpes sem colocar em risco a si mesmos e aos oponentes. Porque as lutas, longas e excepcionalmente bem filmadas por Wang, utilizam-se de longos planos abertos e sem cortes, em detrimento da muito mais cômoda edição picotada de videoclipe que é uma praga do cinema moderno.

Ou seja: os caras tinham que treinar muito bem a coreografia para convencer, ao invés de gravar tudo em pedacinhos curtos e deixar a bomba nas mãos do editor. Mesmo quando exageram um tantinho os feitos do herói, as lutas de DRIVE são muito mais críveis e convincentes do que a maioria das pancadarias vistas nas produções recentes.


Quando você vê Jason Statham sentar porrada na série "Carga Explosiva", por exemplo, aquilo chega a ser cômico de tão inverossímil e forçado; já aqui é mais fácil acreditar que o herói Dacascos realmente seja capaz de vencer inúmeros oponentes, pois os confrontos, ainda que cheios de malabarismos e piruetas, são mais "pé no chão" e menos videogame.

DRIVE também resolve com criatividade um problema crônico das aventuras de artes marciais produzidas nos Estados Unidos: o fato de os bandidos nunca dispararem um tiro na cabeça do Jet Li ou do Jackie Chan ao invés de tentarem inutilmente sair no braço com eles.


Afinal, Toby tem o valioso dispositivo no seu peito que só funciona enquanto seu coração estiver batendo, e por isso os mercenários no seu encalço precisam capturá-lo vivo, mesmo querendo muito usar suas metralhadoras e bazucas para dar um fim na carreira do herói. Toby também pode ser rastreado facilmente por causa do tal dispositivo, então nunca tem a chance de se esconder por muito tempo.

Por sinal, a cena mais fantástica de DRIVE é quando o batalhão de mercenários comandado por Vic invade um hotel onde a dupla dinâmica recupera as energias. Para não correr o risco de matar a galinha dos ovos de ouro, os bandidos levam bastões eletrificados para tentar nocauteá-lo com segurança. Esperto que só, Toby tira as botas de um dos bandidos e as usa como "luvas" para poder lutar sem correr o risco de tomar choques!


Esta cena também inclui um momento impagável em que Malik usa uma serra elétrica contra um dos mercenários! É um humor negro tão sem-noção que parece até saído daquele clássico momento com Schwarzenegger na cabana de jardinagem em "Comando para Matar".

E Dacascos está F-O-D-A como herói. Aliás, um puta herói que usa punhos, pés, armas de fogo, objetos em geral e até espadas contra os inimigos, sem fazer muita distinção entre apenas nocauteá-los ou matá-los.

Esse aqui é indiscutivelmente o seu grande papel no cinema, após uma série de aventuras baratas, bombas como "Double Dragon" e participações pouco expressivas em blockbusters tipo "A Ilha do Dr. Moreau" de John Frankheimer, em que interpretou uma das criaturas. (Uma rara exceção na sua filmografia é o igualmente decente "Crying Freeman", lançado dois anos antes).


Em cada cena de ação de DRIVE, Dacascos luta como se sua vida dependesse disso, movimentando-se com tanta rapidez e agilidade que dá vontade de rever o filme inteiro em câmera lenta. Seu herói hiperativo parece um cruzamento genético do Jet Li de "Máscara Negra" com o Jackie Chan da série "Police Story".

Consta, inclusive, que o diretor Wang e o coreógrafo de ação Sakamoto espremeram o pobre do ator até o bagaço, praticamente obrigando-o a participar do máximo de cenas sem dublê que ele conseguisse encarar. Isso é mais um fator que valoriza o resultado final: se você passar as lutas em câmera lenta, vai ver que é o próprio Dacascos botando pra quebrar em 80% do tempo!


A conclusão é um verdadeiro presente aos fãs de ação: um quebra-pau que dura uns bons 20 minutos, em que primeiro nosso herói enfrenta um grupo de motociclistas (à la "O Jogo da Morte", aquele filme póstumo do Bruce Lee), e depois um "modelo avançado" que tem um dispositivo como o dele implantado no próprio corpo, mas mais moderno e garantindo alguns recursos a mais, como uma "sobre-vida" em caso de morte.

A tal "versão 2.0" é interpretada pelo japonês Masaya Katô, que já havia contracenado com Dacascos em "Crying Freeman". Bem, se o herói é um cruzamento de Jet Li com Jackie Chan, este vilão anabolizado parece o Agente Smith, de "Matrix", depois de cheirar cocaína e beber dez litros de Red Bull.

(Ah, vale lembrar que DRIVE é dois anos anterior a "Matrix", embora o modelo avançado interpretado por Katô apareça com um figurino bem semelhante aos personagens dos Irmãos Wachowski, vestindo casacão longo e óculos escuros!)


Segundo Scott Phillips declarou em entrevistas, ele escreveu o roteiro ainda no começo dos anos 90, originalmente imaginando-o como um veículo para Jackie Chan (no lugar de Dacascos) e Sylvester Stallone como sidekick (!!!). É por isso que, num momento do filme, o vilão Vic orienta um de seus homens para atirar na perna do "baixinho" e na cabeça do "altão", uma fala escrita pensando em Jackie e Stallone, já que Dacascos e Kadeem têm praticamente a mesma altura.

Pessoalmente, fico muito feliz que esse projeto para blockbuster não tenha saído do papel como o roteirista havia concebido, pois Stallone faria de tudo para ganhar mais tempo em cena e roubar o estrelato de Jackie, o que não acontece aqui entre Dacascos e seu sidekick. Além disso, grandes estúdios não sabem fazer filmes de ação e iriam substituir a ação desenfreada pela comédia, e as lutas práticas por efeitos especiais.

(Só para constar, o único encontro entre Stallone e Jackie acabou sendo na mal-sucedida comédia "Hollywood - Muito Além das Câmeras", em que eles estrelam um filme de ação fictício chamado "Trio".)


Para encerrar, DRIVE é tão competente e bem produzido que parece ter custado bem mais do que o seu real orçamento. Acredite se quiser, mas essa maravilha custou apenas 3,5 milhões de dólares - valor que não paga nem um dia de filmagens de "Os Mercenários 2"!

Superior a qualquer coisa que Jet Li ou Jackie Chan tenham feito nos Estados Unidos (o que nem é um grande feito, considerando as porcarias em que ambos se meteram), o filme também deve ter deixado Brett Ratner possesso, pois é tudo que esse zé-mané tentou fazer nos seus três "A Hora do Rush" e não conseguiu.


DRIVE é tão bom, mas tão bom, que tinha tudo para transformar Mark Dacascos em super-ídolo de ação e Steve Wang no novo nome quente do gênero. Afinal, se voltarmos a 1997 iremos constatar que não havia praticamente nada no mesmo nível sendo produzido nos Estados Unidos: os filmes de ação norte-americanos de destaque naquele ano foram "Con Air", "A Outra Face", "Velocidade Máxima 2", "A Colônia" e aquelas produções baratas rotineiras estreladas por Gary Daniels, Oliver Gruner e Don "The Dragon" Wilson.

Infelizmente, a companhia que produziu DRIVE não tinha grana suficiente para bancar um lançamento decente, e ele foi distribuído direto para o mercado de VHS/DVD, sem nunca chegar à tela grande. Para piorar, ganhou uma nova edição para americano ver, com quase 20 minutos a menos e uma abominável trilha sonora com música eletrônica.

A "director's cut" de Steve Wang, com mais desenvolvimento de personagens e trilha original que não incomoda os ouvidos, saiu em DVD somente na Europa.


Por causa disso (versão mutilada e sem lançamento nos cinemas), DRIVE acabou relegado à poeira das videolocadoras e nunca recebeu o merecido destaque, nem transformou Dacascos e Wang em grandes nomes das suas respectivas áreas, como podia ter acontecido num mundo justo e perfeito.

Pelo contrário: o diretor foi comandar episódios dos seriados "Power Rangers" e "Kamen Rider", sem nunca mais ter assinado nenhuma outra produção no mesmo nível, enquanto seu ator continuou estrelando aventuras baratas direto para vídeo.


A bem da verdade, Dacascos quase chegou lá uma segunda vez ao aparecer na aventura "O Pacto dos Lobos", de Christophe Gans, no papel de um índio bom de briga. Mas não foi muito além disso, e o mais perto que chegou do cinemão classe A foi como vilão que apanha de Jet Li no descartável "Contra o Tempo" (2003).

Ironicamente, comparar a luta afetada e mal-filmada entre Li e Dacascos nesse filmeco com qualquer cena de DRIVE é o mesmo que comparar Mozart com Michel Teló!


Por isso, repito que é uma lástima o fato de DRIVE não ter feito o devido sucesso e até hoje seja tão pouco conhecido. Pois, como já escrevi, você pode viver sua vida toda e nunca dar bola para ele.

E vou além: se dependesse de mim, novos diretores de ação seriam obrigados a assistir muitas vezes o filme de Wang para aprender como se faz cinema de ação direitinho.

Pode até ser que esse DRIVE aqui não seja tão fodão quanto o novo aí do dinamarquês, do qual todo mundo está falando maravilhas. Mas pelo menos uma coisa eu garanto: depois de vê-lo, quase tudo que foi feito em matéria de "cinema de ação" de 1997 para cá parece completamente obsoleto ou muito fraco.


Pois este é um daqueles raros filmes que, quando acaba, deixam a maior vontade de ver de novo, nem que seja só para checar as melhores lutas. E também é um daqueles cada vez mais raros casos em que você fica até torcendo para sair um "Drive 2" com os mesmos atores e realizadores. O que, infelizmente, jamais acontecerá, dada a obscuridade do original.

Alô, Stallone: o que é que você está esperando para colocar o Mark Dacascos em "Os Mercenários 3"?

Alô, grandes estúdios: o que você estão esperando para dar emprego e dinheiro ao Steve Wang?

Trailer de DRIVE



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Drive (1997, EUA)
Direção: Steve Wang
Elenco: Mark Dacascos, Kadeem Hardison, Brittany Murphy,
John Pyper-Ferguson, Tracey Walter, James Shigeta, Ron Yuan,
Masaya Katô, R.A. Mihailoff e Dom Magwili.

Texto copiado sem permissão do blog filmes para doidos, de Felipe M. Guerra

terça-feira, 10 de novembro de 2020

ELITE DE ASSASSINOS (1973)


 O norte-americano Sam Peckinpah não foi somente um dos melhores cineastas da história do cinema norte-americano, mas também um dos mais problemáticos. Brigava com atores, com produtores, com roteiristas, com colaboradores de longa data, e tudo isso enquanto filmava cenas fantásticas de ação e violência com olho clínico, entre doses cavalares de uísque ou vodka (além de tudo, era um alcoólatra irrecuperável, que morreu por complicações decorrentes do excesso de bebida).


Provavelmente, Peckinpah não foi o primeiro diretor a usar o recurso da câmera lenta para alongar as cenas de ação e dramatizar as cenas de mortes durante tiroteios. Mas, com certeza, foi um dos que melhor utilizou esta técnica, inspirando cineastas tão diferentes quanto Enzo G. Castellari e John Woo.

ELITE DE ASSASSINOS é um dos filmes menos conhecidos do mestre. Diz a lenda, inclusive, que o próprio diretor não gostava muito da obra, que continua inédita no Brasil, tanto em vídeo quanto em DVD. É aquele tipo de produção que você até sabia que existia, mas, nos tempos pré-internet, não tinha como assistir. Felizmente, para corrigir esta injustiça, o canal de TV por assinatura Telecine Cult andou reprisando o filme há alguns meses, e finalmente pude conferir este obscuro trabalho de um dos meus cineastas preferidos. O resultado: diferente do que eu esperava, mas ainda assim muito acima da média atual.

Bem, para começo de conversa, este é o "filme de ninjas" do Peckinpah. Na época, produções de artes marciais estavam em alta. ELITE DE ASSASSINOS foi feito em 1975, dois anos depois do estrondoso sucesso de bilheteria de "Operação Dragão" (estrelado por Bruce Lee), e um ano depois de um dos grandes clássicos de Peckinpah, o autoral e cruel "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (outra maravilha que injustamente continua inédita nas locadoras brasileiras).

Com um roteiro de artes marciais nas mãos, escrito por Marc Norman e Stirling Silliphant - a partir do livro de Robert Rostand -, Peckinpah buscou inspiração, veja só, nos próprios filmes de Bruce Lee para entrar no clima da coisa, conforme confessou em uma entrevista da época.

Porém, mais que um "filme de ninjas", ELITE DE ASSASSINOS é a tradicional história de vingança resolvida à moda antiga, história essa que o diretor adorava contar. E está centrada no relacionamento entre dois amigos de longa data e "colegas de trabalho", Mike Locken (James Caan, excelente) e George Hansen (Robert Duvall, roubando a cena sempre que aparece). Eles são espiões-mercenários que atuam para a "elite de assassinos" do título: um grupo de agentes contratados para fazer trabalhos sujos por dinheiro, principalmente para a CIA. O início do filme mostra a dupla explodindo um prédio - literalmente, já que Peckinpah filmou a detonação real de um antigo quartel do Corpo de Bombeiros de San Francisco!

Metralhadoras contra ninjas!

A próxima missão da dupla é proteger uma importante testemunha para o governo, mas é aí que Hansen se revela um traidor (provavelmente contratado por alguém que pagou mais que o atual empregador). Após explodir os miolos da testemunha, o vira-casaca atira num joelho e num cotovelo de Locken, deixando-o aleijado. Enquanto passa por cirurgias no hospital, o herói descobre que perdeu o "emprego", já que sua recuperação jamais será 100% e ninguém irá contratar um inválido para missões perigosas como as que ele realizava.

Assim, enquanto se envolve com sua enfermeira, Locken inicia uma lenta e sofrida recuperação, mostrada sem economizar tempo pela câmera do diretor - o que dá uma bela idéia do esforço hercúleo que o ex-agente precisa fazer para recuperar um mínimo da agilidade, ao contrário daqueles filmes absurdos em que os heróis se recuperam de qualquer lesão em tempo recorde. 

Quando já está afiado para voltar à ativa, inclusive improvisando o uso da bengala como arma em lutas corpo a corpo, Locken é chamado para chefiar um grupo de mercenários e proteger a vida de Yuen Cheung (Mako), um rico empresário oriental que está nos EUA porque foi jurado de morte pelo vilanesco Negato Toku (Tak Kubota), líder de uma quadrilha de ninjas. Claro que a missão tem um toque pessoal: o traíra Hansen foi o assassino contratado por Toku para dar um fim em Cheung em território norte-americano, e assim Locken pode unir a satisfação da volta ao trabalho com a busca pela sua vingança pessoal.

Nestes tempos de "geração ecstasy", em que filmes de ação precisam ter um milhão de cortes por segundo e obrigatoriamente deixar o espectador com dor de cabeça no final, é sempre um alívio ver uma velha história de vingança à moda antiga, sem movimentos acrobáticos de câmera ou exageros digitais. ELITE DE ASSASSINOS é um filme lento, que não tem pressa nem queima cartuchos simplesmente pulando de uma cena de ação para outra (artifício usado pelos roteiristas que não têm história para contar). A maior parte da trama é centrada em Locken e na sua recuperação, e não na pancadaria ou nos tiroteios.

Para quem espera o velho duelo ao pôr-do-sol entre herói e vilão, o roteiro ainda revela uma surpresa incrível, que para alguns poderá soar como toque de gênio: no começo do ato final, o vilanesco Hansen é morto sem alarde nem emoção por um dos homens de Locken, e não pelo próprio herói, que fica, assim, privado de sua tão sonhada vingança pessoal - e é evidente a decepção do pobre coitado ao ver o arquiinimigo morto por outras mãos que não as suas. 

Por isso, quando chega o duelo final e os ninjas finalmente entram em cena, o filme já perdeu boa parte de sua força, já que não veremos o prometido embate entre Locken e Hansen. Um contra-clichê corajoso, mas que de certa maneira também é uma armadilha, pois faz com que o espectador perca um pouco do interesse pelo filme. Até porque o cinema de ação nos acostumou, desde os primórdios, a esperar pelo velho duelo final entre bonzinho e malvado...

Metralhadoras contra ninjas!

E se o jogo de gato-e-rato entre Caan e Duvall, dois excelentes atores da velha guarda, já não fosse motivo mais do que suficiente para eu recomendar o filme, ELITE DE ASSASSINOS ainda tem Burt Young interpretando Burt Young (e ele sabe fazer outro papel?) e um jovem Bo Hopkins como atirador psicopata. E é no final que a coisa realmente fica maluca, com ninjas atacando os "heróis à moda antiga" com espadas em punho, apenas para serem implacavelmente abatidos com impiedosos tiros de Uzi dos mercenários - que não têm um pingo da "honra" dos guerreiros orientais!

Percebe-se que Peckinpah está mais contido - mais convencional, até - do que de costume. Isso tem explicação: ele foi contratado por Mike Medavoy, um dos manda-chuvas da United Artists na época. Medavoy leu o roteiro e achou que o velho Sam era a melhor escolha para levá-lo às telas, mas sabia que nenhum estúdio aceitaria trabalhar com o encrenqueiro diretor, àquela altura já totalmente queimado em Hollywood. Mas Medavoy foi teimoso: convenceu os produtores de que Peckinpah ficaria sob sua rigorosa supervisão e não aprontaria durante as filmagens. E assim aconteceu.

Com exceção de "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia", praticamente todas as obras do diretor sofreram nas mãos dos produtores e dos estúdios, que cortavam e reeditavam seus trabalhos à revelia, ou lhe negavam mais dinheiro quando ele estourava o cronograma de filmagens. ELITE DE ASSASSINOS não fugiu à regra: o estúdio resolveu abrandar a violência para ganhar uma censura menor nos cinemas, e as cenas cortadas foram perdidas. O DVD lançado nos EUA traz esta mesma versão censurada que foi exibida pelo Telecine Cult. Uma pena.

ELITE DE ASSASSINOS é especialmente divertido e interessante porque vai na contramão de tudo que o espectador espera quando o filme começa. Não temos o duelo climático entre herói e vilão, não temos um herói que recebe uma lição de vida após vencer a situação de quase invalidez, e nem ao menos tempos grandes lances de kung-fu. O que parece é que Peckinpah está tirando onda com o sucesso que os filmes de ação de Hong-Kong faziam na época, principalmente quando os ninjas tentam lutar ao se estilo e são mortos sem piedade com tiros de metralhadora. E os heróis ainda fazem graça dos pobres ninjas: "O que são essas roupas? Mas que coisas mais ridículas!".

Longe de ser um grande filme, ELITE DE ASSASSINOSpode ser considerado uma síntese de temas que Sam Peckinpah adorava abordar em seus trabalhos, como os heróis ultrapassados que preferem resolver as coisas à moda antiga (para quê aprender artes marciais se é só dar tiros nos ninjas?), e a amizade e relação de respeito entre herói e vilão, mesmo que estejam em lados diferentes do conflito. 

Quando Locken, no hospital, pergunta a si mesmo porque Hansen não lhe deu um terceiro tiro na cabeça, ao invés de apenas deixá-lo aleijado, no seu íntimo ele sabe a resposta, e o espectador também: porque no fundo eles são e continuam amigos. E é esse tipo de riqueza na construção de personagens e conflitos que infelizmente não se vê mais no cinema moderno...

Metralhadoras contra ninjas!

E se o jogo de gato-e-rato entre Caan e Duvall, dois excelentes atores da velha guarda, já não fosse motivo mais do que suficiente para eu recomendar o filme, ELITE DE ASSASSINOS ainda tem Burt Young interpretando Burt Young (e ele sabe fazer outro papel?) e um jovem Bo Hopkins como atirador psicopata. E é no final que a coisa realmente fica maluca, com ninjas atacando os "heróis à moda antiga" com espadas em punho, apenas para serem implacavelmente abatidos com impiedosos tiros de Uzi dos mercenários - que não têm um pingo da "honra" dos guerreiros orientais!

Percebe-se que Peckinpah está mais contido - mais convencional, até - do que de costume. Isso tem explicação: ele foi contratado por Mike Medavoy, um dos manda-chuvas da United Artists na época. Medavoy leu o roteiro e achou que o velho Sam era a melhor escolha para levá-lo às telas, mas sabia que nenhum estúdio aceitaria trabalhar com o encrenqueiro diretor, àquela altura já totalmente queimado em Hollywood. Mas Medavoy foi teimoso: convenceu os produtores de que Peckinpah ficaria sob sua rigorosa supervisão e não aprontaria durante as filmagens. E assim aconteceu.

Com exceção de "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia", praticamente todas as obras do diretor sofreram nas mãos dos produtores e dos estúdios, que cortavam e reeditavam seus trabalhos à revelia, ou lhe negavam mais dinheiro quando ele estourava o cronograma de filmagens. ELITE DE ASSASSINOS não fugiu à regra: o estúdio resolveu abrandar a violência para ganhar uma censura menor nos cinemas, e as cenas cortadas foram perdidas. O DVD lançado nos EUA traz esta mesma versão censurada que foi exibida pelo Telecine Cult. Uma pena.

ELITE DE ASSASSINOS é especialmente divertido e interessante porque vai na contramão de tudo que o espectador espera quando o filme começa. Não temos o duelo climático entre herói e vilão, não temos um herói que recebe uma lição de vida após vencer a situação de quase invalidez, e nem ao menos tempos grandes lances de kung-fu. O que parece é que Peckinpah está tirando onda com o sucesso que os filmes de ação de Hong-Kong faziam na época, principalmente quando os ninjas tentam lutar ao se estilo e são mortos sem piedade com tiros de metralhadora. E os heróis ainda fazem graça dos pobres ninjas: "O que são essas roupas? Mas que coisas mais ridículas!".

Longe de ser um grande filme, ELITE DE ASSASSINOSpode ser considerado uma síntese de temas que Sam Peckinpah adorava abordar em seus trabalhos, como os heróis ultrapassados que preferem resolver as coisas à moda antiga (para quê aprender artes marciais se é só dar tiros nos ninjas?), e a amizade e relação de respeito entre herói e vilão, mesmo que estejam em lados diferentes do conflito. 

Quando Locken, no hospital, pergunta a si mesmo porque Hansen não lhe deu um terceiro tiro na cabeça, ao invés de apenas deixá-lo aleijado, no seu íntimo ele sabe a resposta, e o espectador também: porque no fundo eles são e continuam amigos. E é esse tipo de riqueza na construção de personagens e conflitos que infelizmente não se vê mais no cinema moderno...

The Killer Elite (1975, EUA)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: James Caan, Robert Duvall, Arthur Hill,
Bo Hopkins, Mako, Burt Young, Gig Young, Tom 
Clancy, Tak Kubota e Sondra Blake.

Texto copiado do blog "Filmes para Doidos", de Felipe M. Guerra